9.7.21

à hora em que as sombras descem

 

em meio à obscenidade das cruzes

um olho se arregala

 

do azul nascem pássaros

a tangenciar voos partidos

 

crianças saltam do sono

para a mira de fuzis

 

mulheres tecem toucas

para bonecas sem cabeças

 

tiros sangue sirenes

escorrem entre dedos cruzados

 

vida exaurida de desânimos

soluça entre vazios e procissões

 

aos ouvidos da noite

resta o grasnar do corvo de poe.

 


fogo nas gazas


sem tato cor e olfato

esqueletos rendem-se

ao escárnio

 

aos humores da lua

lençóis d’água

se incendeiam

entorpecendo esquinas

do sexo

 

no fundo tudo são ossos 

a vender-se

em abundantes “QR Codes”

sob a ironia de um céu

de indiferenças.

 

a cidade

dorme devendo

muito mais

que uma chuva fina

sobre o fogo nas “gazas”

do capitalismo

 

a cidade dorme devendo

abrir portas às diferenças. 

praia de cabo branco

 

:

um deus desconhecido

ou escultor da poesia?

 

tem altura e altivez

para ganhar minhas indecências

até em jogo de xadrez

 

***

de sombrinha e salto alto

leio joão cabral de melo neto

recostada na cadeira de praia

 

entre sabiás e palmeiras

da praia de cabo branco

surge o poeta escultor

 

olhos de enigmas me perfuram

areias engolem meu juízo

mãos me acendem fulgurâncias

 

arregalo-me por inteiro

não sei disfarçar o verbo amar

 

***

lâminas de sol anunciam dia

respiro caos e papel

 

descubro:

foram sonhos adormecidos

desejos sem ética lógica égide

 

talvez golpe da inconsciência

:excesso de bolor

do livro que o poeta não abriu.


no limiar do desconhecido

 

preciso de algo maior do que eu
menos olhos
menos ouvidos
mais silêncios a me envolver

 

preciso devolver-me

à alguma descrença
a qualquer passo
aos mais baixos mistérios

 

minha existência

não se explica na física quântica
e a morte é um corte que se aprofunda
nesta secreta esperança de perenidade

 

de quanto afeto precisarei
para perdoar esta mão

que está a se retirar da minha?

do nada restará um ponto

 

de tudo fica um nada

abismo acaso casos

de nada fica um dado

dardo dança trança

um pedaço de história

farpa a emergir essência

céu a ensaiar incertezas

células a isolar futuros

 

de tudo ficam memórias

chances gavetas chaves

promessas de amanhãs

escritas em tinta azul

um naco de esperança

comigo-ninguém-pode

mil e trinta orquídeas

resistência em aquarela

 

do nada restará um ponto

sensibilidade em segurar

todavias turbulência lenços.


primícias

 

estas meninas-mães

mal arrancadas da infância

nasceram em ninhos de medo

mordem culpas lábios línguas

engolem gritos de estupros

 

tristes meninas

em busca de ir além

da resistência dor desamor

 

as meninas de amanhã

árvore de raízes entranhosas

terão útero selvagem livre

voz a desafogar suas escolhas

dentes a sugerir felinidade

 

mulheres-terra

estas meninas de amanhã

primícias de voo pouso vida.

 


quanto sal teremos que beber?

 

preencho minha insônia

fingindo-me

mulher de chico

se durmo sonho poesia

amanheço figuras de sintaxe

 

o próximo sol me sacode

pela prestidigitação

de novas metáforas

e pelo grito do sangue

nas inúmeras manchetes do dia

 

ó pai

quanto sal teremos que beber

para que se cortem as cabeças

dos deuses da  ignorância humana?